domingo, 19 de outubro de 2008

Matutice globalizada

Montar um espetáculo multimídia de cultura popular não é um negócio pra qualquer um não.
Atualmente, que me venha à lembrança, só mesmo Antônio Nóbrega, que está apresentando 9 de Freveiro, aliás um espetáculo belíssimo, a cuja estréia assisti exatamente no dia 9 de fevereiro, Dia Internacional do Frevo, no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco. Coisas do Recife.
Pois não é que a Paraíba, mais precisamente, essa Campina que não tem mais tamanho, encontrou um filho disposto a trilhar um caminho assim, parecido?
Em Bandeira Nordestina, Jessier Quirino consegue reunir de forma extremamente bem coordenada diversas formas de manifestação cultural para dar vazão ao seu desejo incontido de divulgar e de preservar a cultura popular matuta.
São estilos e, acredito, até objetivos bem diferentes. Aliás, comparar os dois espetáculos não só seria errado, mas injusto.
O espetáculo de Nóbrega tem foco principal na música – ele próprio é um instrumentista virtuoso – na dança e nas artes cênicas, com espaço para pesquisa histórica e um pouco de poesia. Não tenho medo de arriscar dizendo que é o artista popular mais completo em atividade no Brasil.
Mas, no conjunto, acredito que Bandeira Nordestina acaba sendo, digamos, até mais multimídia do que 9 de Freveiro. Jessier não tem um único foco. Montou um espetáculo com humor – atual e refinadíssimo –, música – sempre se cerca de músicos de extrema qualidade técnica – e aquilo em que é mais sensacional, a poesia popular. E olhe que ele parte da desvantagem de não ser um humorista, de não ser cantor ou músico, e principalmente de não ser um performer, daqueles nascidos para o palco, como Nóbrega.
Jessier usa, convenhamos, uma linguagem muito mais regional. Mas quem é que tem coragem de dizer que esse regionalismo, que essa matutice sedutora e nostálgica não termina, ao mesmo tempo, sendo universal, derrubando fronteiras, falando para o mundo?
Alegra perceber que o poeta de Vou-me embora pro passado não nega nem cega para o futuro. É antenado. Conhece perfeitamente o ritmo do tempo, a irretroatividade dos seus efeitos e não fica colocando obstáculos nem perdendo tempo inútil com aquilo que comprovadamente não pode evitar.
Ao invés disso, procura usar o seu trabalho como ferramenta para imortalizar hábitos, costumes, cenários, personagens, linguagem, estilos de vida e conceitos que acredita, coberto de razão, terem importância fundamental para manter vivas as referências da nossa cultura, seja para o prazer de nossas próprias lembranças, seja para o conhecimento dos que estão por vir.
Faz isso da forma mais engenhosa que pode haver – através da linguagem universal da arte e da poesia – e assim consegue o seu objetivo de resgatar e de perpetuar os elementos de cultura popular que, de outro modo, se perderiam no tempo e no esquecimento, e assegura o seu lugar de destaque como defensor de nossa nordestinidade, de nossa paraibanidade.
Como fiquei feliz ao ver o Teatro Santa Roza completamente lotado, aplaudindo a luta e o talento, reconhecendo o trabalho tão importante desse campinagrandense, e contrariando a máxima de que o santo de casa não obra milagre. Espero que Campina faça o mesmo, no próximo dia 5 de maio, quando Jessier volta ao palco do Teatro de Seu Cabrá.
É preciso dar ouvidos aos nossos artistas populares, tratá-los com atenção, com respeito, e com o carinho que alguém espera receber em sua própria casa, que é pra depois a gente não ficar por aí, se roendo de ciúmes, como a gente tem de Ariano, de Jackson e de tantos outros, que a Paraíba pariu e deu pra Pernambuco criar.

Nenhum comentário: